quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Um dia saberás a minha história,
sabendo eu há muito o teu olhar.

Um dia hás-de entender como nasci
entre mortais descuidos (e quedas, sobressaltos)
ou como fui crescendo por temores e lutos
nem sempre visíveis no vocabulário.

Um dia eu olharei para ti
como quem recolhe, na aspereza
das urzes, um suco novo.

Um dia habitarás um cereal de estrondos
e eu irei contigo na vastidão de cores
de uma fulgurante aguarela.

Um dia serei tu e tu serás só eu
enquanto o vento fresco há-de trazer-nos
a flor de um ébrio sonho,
ó esplêndida maresia.

Um dia somos dois como levados
a um só átrio de intensa brancura.

Um dia seremos um nesses quebrados
quadris que nos devolvam o perfume,
o lume da aliança inenarrável entre argila
e seiva, nascente e rio, língua e saliva
- num impulso maior que a própria vida.

Um dia serei música, talvez...
E tu dirás que o som, por ser fruto
tão íntimo, será um assombroso amanhecer.

Um dia serei espasmo ou só destroços.
E tu dirás que alguém (bem junto a ti)
se transviou e enlouqueceu.

Um dia serei rosto fora do mundo
(dos vivos, dir-se-á). E tu serás o mundo
num sempre lembrado
e enobrecido rosto.

Um dia voarei pelos outeiros
que pairam no destino.
E tu serás um lírio sempre lesto
a florescer ao meio do coração.

Um dia saberás que faltarei
em hora jamais anunciada.
E serás reino e mastro de destreza
perante o fraquejar destes meus passos.

Repito: um dia serei tu e tu o meu correr
nas valas quase mudas pelo pasmo.
E serás um grão em terra brava
que em mim se tornará viçosa árvore.

Um dia serei extrema gargalhada,
esse riso que só às vezes fui.
E tu dirás que a hora é de seguir
no véu (na lucidez) de entristecer.

Um dia saberás qual o destino
deste barco de búzios, alquebrado.
E dirás que a cinza é um sábio signo dele
e que o brilho de um peixe o salvará.

Um dia roubarás o azul aos nomes
que do azul só falam pelos dentes.
E os nomes serão leves para sempre
e tu serás mais livre até morrer.

Um dia saltarei as pedras todas
até que a montanha me devolva
toda a frescura da pureza antiga.
E tu dirás que a pedra será bronze,
que nela tangerão as hastes do futuro.

Um dia vogarás como em dilúvio
entontecido. E eu farei que nunca
nunca tremas quando as ondas
subirem mais alto.

Um dia abalroarei de frente
contra um muro de vidro.
E tu dirás que um dedo ensanguentado
não é ferida que baste, que nunca
alcançara letras de dor.

Um dia há-de nascer-te, bem junto
ao ombro, o ramo de uma angústia.
Vencê-la-ás com o acordar da luz
que tão perto te alaga.

Um dia acordarei em qualquer lado,
num campo de azevinho e felicidade.
Saberás então, por um troar de números
e de estrelas, quanto o luzir da areia
em breve parte.

Um dia hei-de dizer-te
quantas nuvens se cruzam
no chão da tempestade e do terror.
E tu dirás que a febre anda no ar
- que um bafo de turfas inquinadas
está cada vez mais perto e é mais audível.

Um dia me olharás e não respondo.

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